CORPO EM DIVIDA (Letra baseada no texto 18/10/88)
Автор: Gim Afonso
Загружено: 2026-02-23
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É a voz de alguém que guarda o nome do outro na boca como um segredo precioso, resistindo ao impulso de chamar, porque amar, aqui, é um gesto que dói e salva ao mesmo tempo. O espaço íntimo o quarto, o corpo, o silêncio torna-se cenário de espera, desejo e entrega, onde cada ausência é sentida como fome e cada memória como luz crua.
O amor surge sem promessas nem futuros desenhados. É um encontro de mãos imperfeitas, de verdades ditas na respiração, onde o essencial não é a duração, mas a intensidade. Dois corpos reconhecem-se antes mesmo de se tocarem, como se já se soubessem de outras vidas ou de outros sonhos.
Há nesta relação um fogo que não pede perdão: amar é arder, cair junto, aceitar o risco. O outro é faca e abrigo, noite e casa, e mesmo assim ou por isso mesmo é indispensável. Não há calma possível quando o sentimento é vasto demais para caber no tempo.
No fundo, o poema celebra um amor que prefere o tudo ao pouco, o agora ao depois. Um amor que aceita perder-se para sentir por inteiro, porque viver pela metade seria a verdadeira ausência. É um canto íntimo à coragem de amar sem medida, mesmo quando isso implica doer.
Tenho a boca cheia do teu nome
E os dentes cerrados para não chamar
O quarto sabe a ferrugem e fome
E eu aprendi a esperar a sangrar
Há luz crua nas paredes
Sem piedade, sem véu
O teu silêncio entra-me na pele
Como quem já sabe o que é seu
Não me prometas futuro
Tira-me só o chão
Vem com as mãos sujas
E a verdade na respiração
Vem, que eu não sei amar devagar
Morde-me o nome, não peças perdão
Se for pecado, deixa arder
O corpo também tem razão
Vem, que eu não sei cair sozinho
Leva-me ao limite de mim
Se isto é o fim, que seja agora
Com o teu peso sobre o meu fim
Trouxeste sede em vez de flores
E eu bebi sem perguntar
Tenho cicatrizes que sabem o teu toque
Antes mesmo de tocar
És faca e és abrigo
És noite sem moral
Quando me dizes “fica”
O mundo fica igual
Não me fales de calma
Nem de tempo depois
Há corpos que se entendem
Antes de serem dois
Vem, que eu não sei amar devagar
Morde-me o nome, não peças perdão
Se for pecado, deixa arder
O corpo também tem razão
Vem, que eu não sei cair sozinho
Leva-me ao limite de mim
Se isto é o fim, que seja agora
Com o teu peso sobre o meu fim
Não me olhes assim
Como quem vai embora
Olha-me como quem fica
Mesmo que doa agora
Há fados que não se cantam
Raspam-se na carne viva
E eu prefiro perder tudo
Do que viver pela metade da vida
Vem, que eu não sei amar devagar
Morde-me o nome, não peças perdão
Se for pecado, deixa arder
O corpo também tem razão
Vem
Que eu não sei cair sozinho
Leva-me ao limite de mim
Se isto é o fim, que seja agora
No alto de mim
No alto de mim
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