Poema "Vertigem" de Alice Neto de Sousa
Автор: Alice Neto de Sousa
Загружено: 2024-07-11
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"Nem sempre sou brava ou forte
Há dias que entra água na primeira palavra
Confundo o Sul com o Norte
Perco-me no rés do chão
Há dias em que sinto tudo em contramão
Em que o mundo é um caminho
É um camião que me passa atravessado na garganta
Há dias em que tudo o que preciso é uma manta
Nem sempre sou brava
Nos mais altos dos céus
as palavras parecem ocas
E algo se torna mais real
Salto com um amargo na boca
Numa paisagem feita de sal
Nem sempre sou forte
Os sonhos nascem rareados
Com pouco pelo, desfiados,
Nos novelos dos dias, nublados
No hálito das segundas, terças, feias
Que embaraçam as teias
e me tornam menos humana
Há dias que me levam arrastada pela
semana
Em que a dor desce num salto
Num elevador estragado
Num passo mal dado
A descer um degrau
A baixar a temperatura
Olha o degrau
Olha o degrau
Esfolo o joelho a caminhar
Com a sede de suar
Há dias que me passa o barco
E a vontade de remar
Nem sempre sou brava
A água entra na primeira e na última palavra
E nem sempre sou forte
Confundo o Sul com o Norte
Perco-me no rés-do-chão
Há dias assim, em que as rimas me saltam da mão
E todas as sílabas sabem a tónicas
Desequilibradas no receio
De nunca mais conseguir beber um poema inteiro."
Alice Neto de Sousa, Vertigem.
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