Manipulação via Diagnósticos: quando psicopatologias são usadas para justificar irresponsabilidade
Автор: Alan Mocellim
Загружено: 2025-11-30
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Nesse vídeo busco problematizar como determinados diagnósticos em psicopatologia podem, em alguns casos, gerar comportamentos mais irresponsáveis quando são apropriados pelos próprios pacientes como justificativas para condutas disfuncionais. Diagnósticos equivocados ou usados de maneira inadequada podem produzir um fenômeno em que a pessoa, em vez de melhorar, piora, adotando comportamentos impulsivos, imprudentes e socialmente prejudiciais. A noção psicanalítica de “ganho secundário” pode ser útil para explicar isso, pois indica que certas formas de adoecimento podem oferecer vantagens práticas, como maior atenção ou isenção de responsabilidades, e que isto pode contribuir para a amplificação de sintomas por parte de alguns indivíduos, visto que são úteis.
Embora as psicopatologias sejam definidas por danos consistentes ao indivíduo e aos outros, existem pacientes que obtêm benefícios ao reforçar estereótipos associados a seus diagnósticos. Não são raras as situações em que a pessoa, após receber um diagnóstico como depressão ou TDAH, passa a abandonar tarefas, reduzir esforços ou justificar comportamentos abusivos. Esse processo envolve tanto a evasão de obrigações quanto a manipulação de relações sociais por meio da atribuição de condutas inadequadas ao transtorno. Nem sempre esses movimentos são intencionais; muitas vezes, eles se consolidam porque funcionam como estratégias comportamentais reforçadas pelo ambiente, conforme princípios behavioristas.
Um mundo marcado por redes sociais e por uma “indústria da psicopatologia” tudo isso se torna ainda mais grave. Influenciadores digitais, profissionais que produzem laudos de maneira pouco criteriosa e discursos que transformam transtornos em identidades favorecem a adesão a categorias diagnósticas estereotipadas. Alguns pacientes, especialmente aqueles com baixo engajamento terapêutico ou que usam suas dificuldades como ferramenta de manipulação, podem causar danos significativos a seus círculos sociais quando passam a agir de acordo com caricaturas dos transtornos. Por isso, defendo que o psicólogo deve avaliar cuidadosamente se o paciente possui maturidade e engajamento suficientes para lidar com um diagnóstico, podendo, em certos casos, optar por não explicitá-lo no início do processo terapêutico.
O objetivo de um diagnóstico é orientar intervenções, definir tratamentos adequados (farmacológicos ou psicoterapêuticos) e favorecer o engajamento na mudança. No entanto, há modelos terapêuticos eficazes mesmo sem um diagnóstico formal, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), por exemplo. Além disso, pacientes também precisam se autoavaliar: devem considerar se o diagnóstico está contribuindo para seu bem-estar e para o bem-estar dos outros, ou se, ao contrário, estão sobrecarregando familiares, reforçando comportamentos prejudiciais e afastando pessoas importantes. Embora os diagnósticos sejam ferramentas valiosas, precisam ser utilizados com responsabilidade, evitando que funcionem como justificativas para falhas ou como elementos identitários que reforçam irresponsabilidades e produzem danos relacionais.
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Alan Delazeri Mocellim é psicólogo, Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor da pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Leciona, pesquisa e orienta nas áreas de Sociologia das Emoções, Sociologia do Conhecimento e Psicologia Social. Currículo disponível em: http://lattes.cnpq.br/0264933519544511
Os vídeos aqui apresentados são resultado do projeto de extensão "Violência Psicológica e Abuso Emocional" desenvolvido por Alan Delazeri Mocellim na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Qualquer uso de material aqui apresentado deve, portanto, referenciar o autor (MOCELLIM, Alan) e o apoio institucional da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
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